Por ocasião da passagem dos dez anos da morte do Monsenhor Adelmar da Mota Valença
Caríssimos Padres Silvano e Ivo
Dileto amigo professor Albérico
Cara família Mota Valença
Queridos amigos
"Deus enxugara toda lagrima, e já não haverá morte, nem pranto, nem grito, nem dor, porque as primeiras coisas terão passado". Ap 21,4
Com estas palavras do Livro do Apocalipse inicio esta breve reflexão no momento em que oferecemos orações em sufrágio da alma de nosso amado monsenhor no transcurso do décimo aniversario de sua partida para a casa do Pai. Neste mesmo altar erigido por ele, onde nele ele celebrou tantas vezes o Augusto Sacrifício da Missa, junto ao Pe. Silvano oferecemos o mesmo sacrifício em sua intenção. Com certeza, no céu, o monsenhor participa do coro dos reconciliados na grande celebração em reconhecimento ao Deus único e verdadeiro em seu Filho, Jesus Cristo, Senhor nosso, a quem seja dada toda honra e toda gloria pelos séculos sem fim, amem. Unidos a esta Igreja Celeste queremos também nos elevar a Deus, o Pai, o nosso canto.
Após dez anos, os sentimentos que ficam em nossos corações ajudam-nos o compreender melhor a realidade da morte que cerca o ser humano desde o momento da sua fecundação no ventre materno. Principalmente se esse ser humano pode gozar de uma vida longa como aconteceu com o nosso monsenhor. Lógico que não quer dizer que após os noventa anos uma pessoa precise morrer. A Sagrada Escritura diz que os cabelos brancos da velhice são bênçãos de Deus para aqueles que o possuírem. Quer dizer que para Deus a morte não deveria fazer parte da nossa vida, não ao menos antes dos cem anos como relata o profeta Isaias. Porque morremos? Por causa do pecado! Ele trouxe a morte ao mundo e não Deus.
Diz o Catecismo (1007) "a morte e o termo da vida terrestre. Nossas vidas são medidas pelo tempo, ao longo do qual passamos por mudanças, envelhecemos e, como acontece com todos os seres vivos da terra, a morte aparece como o fim normal da vida. Este aspecto da morte da um aspecto de urgência as nossas vidas: a lembrança da nossa mortalidade serve também para recordar-nos que temos somente um tempo limitado para realizar a nossa vida".
E para dar mais ênfase a esta realidade o Livro do Eclesiastes nos fala: "Lembra-te do teu Criador nos dias de tua mocidade... Antes que o pó volte a terra donde veio, e o sopro volte a Deus, que o concedeu". 12, 1.7
Qual esperança nutrimos diante desta realidade? No evangelho de João, Jesus diz: "não se perturbe nem se atemorize o vosso coração. Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim não fosse eu lhes teria dito". Ai repousa a nossa confiança, na palavra do Filho que nos garante a vida eterna. Porém, há exigências que surgem diante da escolha desta esperança. Diz Jesus: "credes em Deus, credes em mim também".
Que exemplo, queridos amigos, nos da o evangelho que há pouco escutamos. O dialogo entre a mulher e Jesus e apresentado como modelo de fé. O que pede a mulher a Jesus? A cura de sua filha possuída por um demônio. Qual a primeira resposta de Jesus? O silencio. O que esta por trás deste texto? Escutemos. O texto diz que Jesus estava na região de Tiro e Sidônia. Estas duas cidades faziam parte da região denominada de decápolis, porque compreendiam dez cidades perto de Cesárea de Felipe, a mais importante. Ficava entre a Galileia e a Judéia. Era uma região mal vista pelos judeus puros, uma vez que lá habitava povos denominados de pagãos, pessoas que não cumpriam a Lei, e tidas como malditas diante de Deus. Vive-se em um tempo de territórios de exclusão, de lugares de pessoas puras e impuras que não poderiam se misturar. Jesus passa por este território porque precisa chegar a Jerusalém, e quando passa depara-se com esta mulher que lhe pede um milagre. O silencio de Jesus não e outra coisa senão sua reação espontânea a alguém que não merece a atenção de Deus. Atender as ovelhas perdidas da casa de Israel, isto e, aos judeus, e sua prioridade. Na consciência de Jesus, não será agora que os pagãos terão direito a salvação. Primeiro dar-se pães aos filhos para depois alimentar os cachorrinhos. Este animal para os judeus era considerado impuro, dai esclarece Jesus sua concepção sobre a natureza desta mulher, impura. Mesmo sabendo disto, a mulher não desiste e demonstra o grau máximo de sua humilhação: "os cães também comem as migalhas que caem das mesas de seus donos". Ela não quer tirar nada de ninguém, quer apenas o que lhe compete, as migalhas, ou o resto. Acontece, então, uma mudança de olhar de Jesus sobre a mulher, ela não e mais a impura, a excluída, mais aquela que serve como modelo de fé. A insistência, a humilhação, e condecorada como experiência de uma Fé confiante. Na sua insistência a mulher chega a um modelo de oração firme e confiante, ou seja, mesmo tendo consciência de sua situação indigna, ela apenas confia na bondade de Deus e eleva a sua suplica. Desprovida de qualquer interesse mesquinho, ela apresenta uma Fé adulta, consciente que atinge o grau máximo do poder da oração que esta acima de simples petição interesseira. Nesta mulher, a oração se apresenta como dialogo de Fé com Deus e disponibilidade diante dele, e abertura a fraternidade humana e aos problemas dos que sofrem por qualquer motivo, e louvor e benção do Deus uno e trino, e é também, como não poderia deixar de ser, suplica de quem se reconhece indigente diante do Senhor e necessitado do seu amor e da sua graça, da forca do seu Espírito e de outros muitos dons e favores do alto.
Se olharmos bem este conceito de fé, e também olharmos para a figura do monsenhor Adelmar, iremos encontrar uma única realidade, pois, quem conheceu e do viveu de perto com ele pode sentir uma Fe adulta e disponível a vontade de Deus. Quando conversei certa vez com ele sobre vocação, como ele compreendia, como tinha descoberto a sua vocação após a morte do irmão padre ele me disse com um certo ar emocionado que foi preciso Agobar morrer para que ele percebesse o chamado de Deus. Abandonar uma vida profissional que com certeza seria promissora como tudo o que ele fez em sua vida e entregar-se nas mãos de Deus no serviço a Igreja exigiu do monsenhor uma Fe adulta e madura.
Guardo como tesouro precioso de inspiração esta conversa que tivemos no seu recanto aqui no colégio. Ele me disse que certa vez ficou pensando se sua vocação não fora apenas um desejo de diminuir a dor do coração de sua mãe pela perca de Agobar. Perguntou-me, se eu não achava que teria sido sua escolha uma vangloria humana. Se de verdade era isto mesmo que Deus tinha destinado para ele.
Confesso, caros amigos, que ouvir certa duvida da boca de um homem da estatura do monsenhor faz mexer o coração de qualquer jovem padre como era o meu caso naquele mês de outubro de 1999. Meio sem jeito, respondi não esta a altura de tal pergunta. Surpreendeu-me quando sorrindo ele apertou a minha mão e disse: padre, nosso ministério e o mesmo, não importa a idade. Nossas duvidas serão as mesmas, pode esperar. Interrompemos a conversa quando um dos coordenadores chegou falando que o professor Albérico estava a minha procura. A tarde, indo para uma missa no sítio alecrim da Paróquia de São Sebastião onde trabalhava, a conversa não saiu da minha cabeça. No dia seguinte, fui novamente ao quarto do monsenhor e imediatamente retomamos o assunto. Falei que depois de muito pensar acredito que a vocação dele jamais poderia ser uma vangloria, pois se assim fosse, a muito ele teria abandonado, principalmente após a morte da mãe. Disse a ele, lembre-se monsenhor que não fomos nós que escolhemos a Cristo, mais foi ele que nos escolheu. Perguntei-lhe se seria possível tanta fidelidade da parte dele sem vocação. Perguntei-lhe se seria possível tanta obediência sem entrega total a Cristo. Enquanto falava estas coisas, pude observar a serenidade de sua pessoa escutando-me como se eu fosse o ancião e ele o jovem padre. Então, perguntei-lhe: Monsenhor, qual o maior ato de obediência que o senhor realizou nestes anos todos? Olhando-me firmemente, deu um breve sorriso e disse, quando tive que entregar o Colégio do Arraial as irmãs por ordem do Bispo. Fiquei surpreso com a sinceridade da resposta. Logo em seguida disse ele, bobagem minha não e?
Caros amigos, quis contar-lues esta experiência que tive com o Monsenhor, porque queria meditar convosco no dia de hoje um aspecto da vocação que pude sentir no monsenhor e que tem me servido de inspiração ate o dia de hoje. O que vi no monsenhor foi a afabilidade da santidade de Deus que moldava a sua vida nos anos finais. Quantas histórias conhecemos deste homem a frente deste Colégio. Os próprios ex-alunos se encarregam de multiplicá-las. Retirando os exageros anedóticos, chegamos a parte que interessa. O Monsenhor tornou-se padre. Fez voto de celibato. Mas, logo trouxe para junto de si uma quantidade grande de filhos confiados a sua atenção. Fala-se que muitos deles aqui vieram para aprenderem a serem homens com o Monsenhor. Ele me falava que fazia ate quatro rondas durante a noite para ver como estavam. Esses garotos tinham no monsenhor um pai que em casa provavelmente não conseguiam ter. Nele, eles encontravam o limite para suas ações e pensamentos que em casa poderiam não ter. A bronca dada pelo monsenhor junto castigo, surtiam mais efeito do que aqueles que recebiam em suas casas. De certa forma, no monsenhor, eles viam aquilo que talvez não vissem em casa. O que? A coerência entre a palavra e a ação. Cada ensinamento dado pelo monsenhor era perceptível em sua vida. Dai reside a autoridade que tantos conheceram no monsenhor. Sua palavra tinha forca porque tinha testemunho.
Eis, caríssimo, no que consiste a afabilidade da santidade. Falo para os outros aquilo que pratico porque acredito que e correto e vejo que e, e não apenas ensino o que ouvi falar. No seu grau de santidade, o monsenhor torna-se modelo porque antes testemunho digno e fiel. A nobreza com que encerrou seus últimos anos, concedeu-lhe a autoridade que bebíamos ao ouvirmos suas palavras. Apresenta-se hoje então, o Monsenhor como modelo de sacerdote e de educador. E figura hoje para nos padres e para aqueles que são educadores.
Isto não quer dizer que devemos imitar o Monsenhor no seu jeito de ser padre e educador. Nada disso. O seu jeito de ser foi próprio da sua época, dos seus dias. No que devemos imitar? Na essência das suas atitudes, ou seja, no objetivo que elas alcançaram ou desejaram alcançar. "Alto padrão de civismo e de gloria. Templo Sagrado de Luz e Saber". Cantamos assim orgulhosamente no hino do nosso colégio. Como isso soa nos dias de hoje aqueles que agora são os artífices da educação nesta casa? Do direto ao mais simples e não menos importante funcionário desta casa, que costumam chamar de "família diocesana".
Eis, caros amigos, o verdadeiro sentido de fazermos memória do mistério de Cristo na missa e dentro dele da pessoa do Monsenhor. Fazemos memória para bebermos da fonte, sabendo que ela transpassa os limites do tempo e fala-nos nos dias de hoje. Se do mistério de Cristo atualizado na eucaristia recebemos a graça que ajuda-nos a crescer na Fé e amadurecê-la a exemplo da mulher Cananéia, da vida do monsenhor aprendemos a afabilidade da Fe que nos impulsiona nos dias de hoje a correspondermos aos desafios que o mundo atual nos apresenta como cristãos e como educadores.
Sou grato de coração ao Pe. Silvano que me convidou para proferir esta homilia. Com certeza, muitos aqui presente trazem na memória seus momentos de convivência com o Monsenhor. A começar por sua família, a exemplo de dona Anita que há pouco tivemos a alegria de celebrar os seus cem anos, ao professor Albérico que durante o tempo em que aqui esteve, cuidou do Monsenhor como se fosse um pai, ou como diriam alguns, como alguém que se integrava ao Colégio de forma que não tinha como separar a exemplo do corpo e da alma enquanto vive neste mundo. A Diocese de Garanhuns tem uma divida de gratidão com o Monsenhor, demonstrada na época de seu sepultamento pelo nosso, então, bispo diocesano, que mandou dar as exéquias do Monsenhor a dignidade episcopal ao enterrá-lo na Igreja Catedral. Na verdade, toda cidade de Garanhuns, todo Estado de Pernambuco, e porque não dizer, todo nosso Brasil, tem esta mesma divida de gratidão com ele.
Termino, pedindo ao Senhor da gloria, melhor, agradecendo pelos anos em que conosco viveu o monsenhor e também agradecendo pelo bom lugar que lá no céu o Cristo Senhor reservou ao Monsenhor e que agora ele ocupa. Servo bom e fiel, porque fostes fiel, vinde receber o prêmio que te foi reservado. Com certeza, queridos amigos, foram estas palavras que o Monsenhor ouviu naquele oito de agosto de 2002, quando deu seu ultimo suspiro nesta terra serrando seus olhos e abrindo-os na vida eterna diante de Cristo. Obrigado, Monsenhor por tudo o que o senhor fez por este colégio e põe esta Diocese, e porque não dizer, por este País. Amem!

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