Homilia para Festa de São Sebastião – Vila do Cruzeiro – Quipapá
“Ele manifestou a sua glória e seus discípulos creram nele”
No quarto ano de minha estada nesta Paróquia, celebro pela terceira e última vez a Festa de São Sebastião, padroeiro desta Vila. Quero no dia de hoje render graças a Deus pelos inúmeros benefícios que Ele derramou sobre nós neste tempo.
No primeiro dia da festa meditamos sobre o significado de ser santo.
Santo é aquele que consegue sentir de forma mais profunda o amor de
Deus, de forma que quando sente, o santo não consegue mais voltar atrás,
mesmo que isso signifique perder a própria vida.
Hoje, no último
dia, queremos meditar sobre a santidade de Deus manifestada por Jesus
através do sinal da água transformada em vinho na festa de casamento no
evangelho que acabamos de ouvir. Vamos ao enredo do texto:
Jesus,
junto com sua mãe e seus discípulos foram convidados para uma festa de
casamento. No meio da festa o vinho acabou. Sua mãe percebendo a aflição
dos empregados procura Jesus e narra o que esta acontecendo. Como que
indiferente ao fato, Jesus diz que nada tem haver com o fato, pois sua
hora ainda não chegou. Sua mãe toma outra atitude e manda os servos
fazerem tudo o que Jesus mandar. Ele manda encher umas jarras grandes de
água, depois pede que tirem um pouco e levem ao responsável pela
organização da festa. Ele prova a água transformada em vinho e fica
surpreso com a qualidade ao ponto que sem saber do que houve vai até o
noivo para parabeniza-lo pelo bom vinho que será agora servido. Ele e o
responsável nada sabem do que aconteceu. Mais os discípulos que
assistiram a tudo chegam ao objetivo final do sinal: creram nele. Com um
jeito próprio o evangelista João narra o primeiro dos sete sinais que
Jesus realizará no seu caminho até o calvário, cada um ajudando o
discípulo a amadurecer sua fé em Jesus. Vamos agora também meditarmos de
forma profunda o significado do texto e descobrimos a mensagem que ele
tem para nós nos dias de hoje.
Primeiro: uma festa de casamento no
tempo de Jesus era celebrada durante uma semana com muita comida e
bebida. A bebida predileta do povo da terra de Jesus era o vinho que
para eles simbolizava a benção de Deus uma vez que acreditavam ser o
vinho uma bebida sagrada. Ter muito vinho era ter a benção de Deus e a
certeza de que o casamento seria sempre abençoado.
Outra
particularidade sobre o vinho. No AT, quando os profetas falavam no
Reino de Deus eles sempre usavam a imagem de uma festa ou banquete em
que Deus colocaria diante do seu povo para celebrar sua vitória. Por
diversas vezes os profetas vão citar o vinho novo que Deus irá oferecer
no seu Reino. O casamento era também outra imagem usada pelos profetas
para explicar como seria o encontro definitivo com Deus depois do
julgamento. Seria como uma festa de casamento onde Deus seria o esposo e
o povo seria a esposa. Esta imagem, o apostolo Paulo vai aplicar quando
fala do relacionamento de Cristo com a Igreja na carta aos Efésios.
Na festa se instala uma crise: eles não tem mais vinho, diz Maria a
Jesus. Seria como dizer que a benção de Deus tinha acabado e esse
casamento estava fadado ao fracasso. O que fazer? Para Maria, Jesus
seria capaz de resolver a situação, por isso que ela o procura. A
resposta de Jesus parece ser de tirar o corpo fora: “Mulher, que tenho
eu haver com isto. Minha hora ainda não chegou”. Ao chamar sua mãe de
mulher, Jesus estava dando a ela total controle da situação, porque na
língua de Jesus, a palavra mulher tem o mesmo significado da palavra
senhora que significa aquela que tem domínio da situação, aquela que
manda. Seria como que Jesus estivesse dizendo a sua mãe que ele não
tinha nada haver com o acontecido porque ele era apenas um convidado.
Mais se ela tivesse algo que pudesse ser feito que fosse feito, ele a
apoiaria. Sua mãe, então, compreendendo o momento diz aos servos para
fazerem tudo o que Jesus disser. Eis sua atitude, abrir espaço para a
palavra e a ação de seu filho. Jesus toma a frente da situação e
realizar o sinal da água transformada em vinho.
Chegamos a conclusão
do texto. O evangelho diz que o responsável pela organização da festa
ficou admirado pela qualidade do bom vinho. Mais o evangelista destaca
que somente os discípulos e os empregados sabiam o que tinha acontecido,
além de Jesus e sua mãe. E ai vem o objetivo do texto: seus discípulos
acreditaram nele. Eis, caríssimos, o desejo de Jesus, fazer com que
aqueles que caminham com Ele passem a creditar nele. Com certeza, muitos
beberam do vinho, mais o texto diz que somente os discípulos creram.
Ora, não é assim também nos dias de hoje? Não são muitos aqueles que
participam das graças de Deus, mais mesmo assim não conseguem professar
sua fé Nele. Não são muitos os que até dizem acreditar em Deus, mais
suas vidas e seus testemunhos são totalmente contrários a vontade de
Deus?
A fé, caros amigos, é uma resposta de adesão ao Pai que dia e
noite trabalha com o Filho para a nossa salvação. A fé é um dom que o
Pai oferece aqueles que abrem suas vidas e corações e se dispõem a
praticarem a vontade do Pai. Quando o homem que crer abre seu coração ao
Pai, ele recebe os dons necessários para sua vida quer seja material ou
espiritual. Na segunda leitura, Paulo diz que o Espirito é quem nos
concede os dons necessários para trabalharmos pelo bem uns dos outros.
Esses dons nos dá a força necessária para sermos fieis a Deus de forma
concreta em nossas vidas. Foi desta forma que nosso Padroeiro conseguiu
suportar os mais duros suplícios e permaneceu fiel ao seu amor a Deus.
Vejamos.
São Sebastião nasceu em Narvonne, França, no final do
século III, e desde muito cedo seus pais se mudaram para Milão, onde ele
cresceu e foi educado. Seguindo o exemplo materno, desde criança São
Sebastião sempre se mostrou forte e piedoso na fé. Atingindo a idade
adulta, alistou-se como militar, nas legiões do Imperador Diocleciano,
que até então ignorava o fato de Sebastião ser um cristão de coração. A
figura imponente, a prudência e a bravura do jovem militar, tanto
agradaram ao Imperador, que este o nomeou comandante de sua guarda
pessoal. Nessa destacada posição, Sebastião se tornou o grande benfeitor
dos cristãos encarcerados em Roma naquele tempo. Visitava com
frequência as pobres vítimas do ódio pagão, e, com palavras de dádiva,
consolava e animava os candidatos ao martírio aqui na terra, que
receberiam a coroa de glória no céu.
Enquanto o imperador empreendia
a expulsão de todos os cristãos do seu exército, Sebastião foi
denunciado por um soldado. Diocleciano sentiu-se traído, e ficou
perplexo ao ouvir do próprio Sebastião que era cristão. Tentou, em vão,
fazer com que ele renunciasse ao cristianismo, mas Sebastião com firmeza
se defendeu, apresentando os motivos que o animava a seguir a fé
cristã, e a socorrer os aflitos e perseguidos.
O Imperador,
enraivecido ante os sólidos argumentos daquele cristão autêntico e
decidido, deu ordem aos seus soldados para que o matassem a flechadas.
Tal ordem foi imediatamente cumprida: num descampado, os soldados
despiram-no, o amarraram a um tronco de árvore e atiraram nele uma chuva
de flechas. Depois o abandonaram para que sangrasse até a morte.
À
noite, Irene, mulher do mártir Castulo, foi com algumas amigas ao lugar
da execução, para tirar o corpo de Sebastião e dar-lhe sepultura. Com
assombro, comprovaram que o mesmo ainda estava vivo. Desamarraram-no, e
Irene o escondeu em sua casa, cuidando de suas feridas. Passado um
tempo, já restabelecido, São Sebastião quis continuar seu processo de
evangelização e, em vez de se esconder, com valentia apresentou-se de
novo ao imperador, censurando-o pelas injustiças cometidas contra os
cristãos, acusados de inimigos do Estado. Diocleciano ignorou os pedidos
de Sebastião para que deixasse de perseguir os cristãos, e ordenou que
ele fosse espancado até a morte, com pauladas e golpes de bolas de
chumbo. E, para impedir que o corpo fosse venerado pelos cristãos,
jogaram-no no esgoto público de Roma.
Uma piedosa mulher, Santa
Luciana, sepultou-o nas catacumbas. Assim aconteceu no ano de 287. Mais
tarde, no ano de 680, suas relíquias foram solenemente transportados
para uma basílica construída pelo Imperador Constantino, e onde se
encontram até hoje. Naquela ocasião, Roma estava assolada por uma
terrível peste, que vitimou muita gente. Entretanto, tal epidemia
desapareceu a partir da hora da transladação dos restos mortais desse
mártir, que é venerado como o padroeiro contra a peste, fome e guerra.
Foi a Palavra do Senhor que deu a São Sebastião a força necessária para
testemunhar sua fé pela sua própria vida. Ele segue apenas o exemplo do
seu Senhor até o fim sofrendo por duas vezes o martírio.
Queridos
amigos, no termino de nossa festa em honra ao nosso mártir, dirijo ainda
uma última palavra de agradecimento a todos vocês. Dentro em breve
estarei partindo para outra cidade. É hora de dizer a Deus muito
obrigado. Obrigado, Senhor, pelos quase quatro anos de alegria e
desafios que o Senhor me concedeu nesta terra. Sou grato pelo carinho,
amizade que construímos nestes dias em que convivi com vocês. Mais, além
de lhes dizer obrigado, é preciso que lhes peça perdão. Infelizmente
não consegui cumprir a promessa de construir sua Igreja. Esta é na
verdade a única angústia que levo daqui. Mais confio que tudo está nas
mãos de Deus e que Ele sabe o que faz. Se eu não consegui, o meu
sucessor conseguirá. Que ele possa ser tão feliz ou até mais feliz o
quanto eu fui aqui. Até qualquer dia desses. Nos encontraremos nos
altares da vida em outras missas. Se não, com certeza nos encontraremos
no céu. Muito obrigado por tudo e que São Sebastião continue a
interceder por nós. Amém.
Pe. Marcelo.

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