
“Veio para o que era
seu e os seus não o receberam”
Caríssimo Monsenhor, Queridos Amigos,
Com esta palavra do evangelho de João lida na missa do dia de
Natal iniciamos nossa reflexão nesta celebração eucarística na festa do
glorioso mártir São Sebastião tão devotamente celebrado por sua paróquia nestes
últimos dias. A Jesus, que inspirou tão grande testemunha, a honra, a glória e
o poder pelos séculos sem fim.
Porque celebramos uma festa para São Sebastião? Porque ele é
santo, podemos dizer. De onde vem a santidade de São Sebastião? Vem de Deus,
não temos dúvida. Porque São Sebastião recebeu este dom da santidade? Porque
ele é dado a todos os seremos humanos que são filhos de Deus, concluiremos.
Nesse caso, podemos dizer que também cada um de nós é herdeiro deste dom da
santidade porque também somos filhos de Deus pelo batismo. Como então, poderemos
desenvolver este dom em nossas vidas? Os
textos das Sagradas Escrituras que acabamos de ouvir nos ajudaram a encontrar a
resposta.
Na primeira leitura do segundo Livro de Samuel, o rei Davi de
forma simples resolve fazer um recenseamento do seu povo. Quer saber quantas
pessoas vivem no reino, quantos guerreiros estão prontos para a luta. Era comum
naquele tempo os reis terem essa curiosidade para saberem se poderiam ou não
vencer uma possível batalha. Os aliados de Davi acham estranho o desejo do rei
uma vez que não era comum Davi se comportar como os outros. Contar os
guerreiros significa saber se são fortes ou não para uma batalha. Mas, acabam
cedendo e obedecem a ordem do rei. Terminado o recenseamento, tendo os números
em suas mãos, o texto diz que o rei cai em arrependimento: “depois que o povo foi recenseado, Davi sentiu remorsos e disse ao
Senhor: cometi um grande pecado, ao fazer o que fiz”. Qual pecado cometeu o
rei em contar seus guerreiros? O que causou o remorso em Davi? Aos nossos olhos
parece não ter nada demais a atitude do rei em contar seus guerreiros. Então,
qual foi mesmo o mal da ação? Uma só: Davi esqueceu que o povo não lhe
pertence, que a coroa que usa não foi uma conquista sua, mas uma escolha de
Deus. Que todas as vitórias que até agora ele conquistou foram todas por permissão
de Deus. Que quem governa o povo é Deus pelo rei e não apenas o rei por sua
própria vontade. O pecado de Davi consistiu na falta de confiança em Deus. O
rei, agora, com um reino mais forte começa a achar que tudo é obra dele e
começa a fazer coisas deixando Deus de lado, querendo tirá-lo do meio das
decisões. Pergunto-lhes, caríssimos, não é assim também nos dias de hoje no
mundo em que vivemos? É comum vermos os grandes homens do mundo tentando
afastar Deus de suas decisões, acreditando que o bom desenvolvimento de seus
países é pura e simplesmente obra de suas próprias mãos? Não é comum o nossos
lideres afirmarem que nossos países são laicos, ou seja, não professam nenhuma
fé para não ferirem o direito dos cidadãos que afirmam serem ateus? Não estamos
a mercê de uma onda de ateísmo, onde o estado agora que proibir o uso de
símbolos religiosos até mesmo em nossas roupas, mandando que se tire todos os
símbolos do olhar público? Agora, lhes convido a olhar para a segunda parte do
texto. Fala-se que pelo pecado cometido, o reino todo sofrerá as consequências.
Vejam caríssimos, pelo erro do rei, todo povo sofrerá. O pecado não trás
consequências só para quem o comete, ele fere também aqueles que estão perto de
quem o comete. Uma grande peste caiu sobre o reino e dizimou a vida de mais
setenta mil pessoas. Vendo o flagelo, o rei implora a Deus o perdão que o
concede. O rei toma consciência do seu erro e coloca-se diante de Deus como o
único merecedor do castigo: “Fui eu que
pequei, eu é que tenho a culpa. Peço-te, que a tua mão se volte contra mim”. Deus
se compadece do seu povo e retira o mal.
Voltando para o nosso hoje atual, qual o resultado do mundo
que quer tirar Deus do seu meio? Crises, muitas crises. Crises econômicas, por
exemplo, onde os países que eram vistos como ricos agora amargam uma recessão
violenta onde segundo pesquisas feitas recentemente na Europa, mostram que a
taxa de desemprego entre os jovens é altíssima. Crise de violência, é só
lembrarmos quantos ditadores caíram ano passado derrubados pela fúria de sua
própria população. Crise de valores morais onde nossos homens públicos são
desacreditados por suas ações de corrupção e desprezo pelo povo que lhe confiou
um mandato. Crise familiar onde a família não consegue reconhecer o papel de
cada um para que possa crescer como verdadeira obra de Deus. Sim, caríssimos,
eis o mundo em que vivemos. Um mundo que se gloria em dizer que não precisa de
Deus, mais que está caindo aos pedaços. Que Deus tenha piedade dele.
Qual a causa de tanta tribulação? O evangelho que ouvimos
responde: “E ali não pode fazer milagre
algum. Apenas curou alguns doentes, impondo-lhes as mãos. E admirou-se com a
falta de fé deles”. Vejam caríssimos, até Jesus se admira com a falta de fé
dos seus conterrâneos. O que lhes causavam essa falta de fé? A falta de
abertura para a novidade de Jesus pelo simples fato de o conhecerem e a sua
família. Como pode ele ter tanta sabedoria se ele sempre viveu aqui entre nós?
De onde vem tanto poder se ele fazia o mesmo que nós fazíamos?
Aqui retorna mais uma vez a pergunta inicial: o que devemos
fazer para que a santidade de Deus que tornou diferente dos outros a vida de
São Sebastião, torne também a nossa?
Vamos ao nosso mártir. São Sebastião nasceu em Narvonne, França, no
final do século III, e desde muito cedo seus pais se mudaram para Milão, onde
ele cresceu e foi educado. Seguindo o exemplo materno, desde criança São
Sebastião sempre se mostrou forte e piedoso na fé. Atingindo a idade adulta, alistou-se
como militar, nas legiões do Imperador Diocleciano, que até então ignorava o
fato de Sebastião ser um cristão de coração. A figura imponente, a prudência e
a bravura do jovem militar, tanto agradaram ao Imperador, que este o nomeou
comandante de sua guarda pessoal. Nessa destacada posição, Sebastião se tornou
o grande benfeitor dos cristãos encarcerados em Roma naquele tempo. Visitava
com frequência as pobres vítimas do ódio pagão, e, com palavras de dádiva,
consolava e animava os canditados ao martírio aqui na terra, que receberiam a
coroa de glória no céu.
Enquanto o imperador empreendia a expulsão de todos os
cristãos do seu exército, Sebastião foi denunciado por um soldado. Diocleciano
sentiu-se traído, e ficou perplexo ao ouvir do próprio Sebastião que era
cristão. Tentou, em vão, fazer com que ele renunciasse ao cristianismo, mas
Sebastião com firmeza se defendeu, apresentando os motivos que o animava a
seguir a fé cristã, e a socorrer os aflitos e perseguidos. O Imperador,
enraivecido ante os sólidos argumentos daquele cristão autêntico e decidido,
deu ordem aos seus soldados para que o matassem a flechadas. Tal ordem foi
imediatamente cumprida: num descampado, os soldados despiram-no, o amarraram a
um tronco de árvore e atiraram nele uma chuva de flechas. Depois o abandonaram
para que sangrasse até a morte. À noite, Irene, mulher do mártir Castulo, foi
com algumas amigas ao lugar da execução, para tirar o corpo de Sebastião e
dar-lhe sepultura. Com assombro, comprovaram que o mesmo ainda estava vivo.
Desamarraram-no, e Irene o escondeu em sua casa, cuidando de suas feridas.
Passado um tempo, já restabelecido, São Sebastião quis continuar seu processo
de evangelização e, em vez de se esconder, com valentia apresentou-se de novo
ao imperador, censurando-o pelas injustiças cometidas contra os cristãos,
acusados de inimigos do Estado. Diocleciano ignorou os pedidos de Sebastião
para que deixasse de perseguir os cristãos, e ordenou que ele fosse espancado
até a morte, com pauladas e golpes de bolas de chumbo. E, para impedir que o
corpo fosse venerado pelos cristãos, jogaram-no no esgoto público de Roma. Uma
piedosa mulher, Santa Luciana, sepultou-o nas catacumbas. Assim aconteceu no
ano de 287. Mais tarde, no ano de 680, suas relíquias foram solenemente
transportadas para uma basílica construída pelo Imperador Constantino, e onde
se encontram até hoje. Naquela ocasião, Roma estava assolada por uma terrível
peste, que vitimou muita gente. Entretanto, tal epidemia desapareceu a partir
da hora da transladação dos restos mortais desse mártir, que é venerado como o
padroeiro contra a peste, fome e guerra.
Queridos amigos, neste breve relato do nosso glorioso mártir
temos a resposta para a nossa pergunta. São Sebastião deixou ser conduzido por
Deus. É assim que respondemos a santidade, sermos conduzidos por Deus nos
nossos afazeres cotidianos, na família, no trabalho, no lazer, na fé. Jesus
vive conosco, ele tomou nossa carne e se fez um de nós para que tomássemos o
seu espirito e nos tornássemos divinos.
Gostaria, para concluir, observar ainda uma característica da
devoção ao glorioso mártir. Em um dos vários hinos que cantamos de São
Sebastião, tem um que diz o seguinte: “Sois
mártir de Cristo, famoso varão! Livrai-nos da peste, São Sebastião”. A devoção
a São Sebastião dar-se por sua intercessão em tempos de epidemias. Em nossa
região no inicio do século passado, era comum encontrarmos situações
degradantes de higiene sanitária. Isto era um paraíso para a proliferação de
doenças. Há relatos de curas e até mesmo de total desaparecimento da peste
neste tempo passado em nossa região, como é o caso de Quipapá. Lá, um senhor
fez uma promessa a São Sebastião para que livrasse a cidade da epidemia. Já se
passaram 77 anos da promessa e todos os anos uma festa fora de época é
realizada em honra de São Sebastião. Aqui também teve o mesmo motivo. Mais
agora os tempos são outros. Nossas cidades parecem serem mais cuidadas, parecem
serem mais dignas de morada. Nossos governos trabalham bastante para acabar com
epidemias que antes tiravam a vida de muitos ou deixavam sequelas para a vida
toda como a paralisia infantil. Mais nem tudo está perfeito ainda. A saúde
pública no Brasil deixa muito a desejar. Em nosso Estado de Pernambuco, muitos
hospitais e unidade de atendimento estão sendo construídos. Mais ainda é
dolorosa a visão de pessoas sofrendo em filas de hospitais nas madrugadas para
conseguirem uma ficha de atendimento. Ora faltam condições físicas, ora falta
profissionais qualificados e bem pagos para realizem sua profissão. Disseram-me
que vosso governo municipal mantém em Recife uma casa de apoio para aqueles que
precisam de tratamento lá. Isto merece voto de aplauso e ser imitado por outros
munícipios. Pensando nesta realidade da saúde, a Igreja no Brasil trará este
tema tão importante para nossa reflexão na próxima Campanha da Fraternidade na
Quaresma que se aproxima: Fraternidade e Saúde Pública. Peçamos a São Sebastião
que sensibilize sempre mais aqueles que nos governam para essa dolorosa
realidade dos enfermos e busquem soluções. Que a santidade de Deus, tão
presente no nosso glorioso mártir seja também a meta nossa e daqueles que nos
governam. Amém.

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