quarta-feira, fevereiro 01, 2012

Homilia Festa de São Sebastião em Canhotinho



Homilia Festa de São Sebastião em Canhotinho

“Veio para o que era seu e os seus não o receberam”

Caríssimo Monsenhor, Queridos Amigos,
Com esta palavra do evangelho de João lida na missa do dia de Natal iniciamos nossa reflexão nesta celebração eucarística na festa do glorioso mártir São Sebastião tão devotamente celebrado por sua paróquia nestes últimos dias. A Jesus, que inspirou tão grande testemunha, a honra, a glória e o poder pelos séculos sem fim.
Porque celebramos uma festa para São Sebastião? Porque ele é santo, podemos dizer. De onde vem a santidade de São Sebastião? Vem de Deus, não temos dúvida. Porque São Sebastião recebeu este dom da santidade? Porque ele é dado a todos os seremos humanos que são filhos de Deus, concluiremos. Nesse caso, podemos dizer que também cada um de nós é herdeiro deste dom da santidade porque também somos filhos de Deus pelo batismo. Como então, poderemos desenvolver este dom em nossas vidas?  Os textos das Sagradas Escrituras que acabamos de ouvir nos ajudaram a encontrar a resposta.
Na primeira leitura do segundo Livro de Samuel, o rei Davi de forma simples resolve fazer um recenseamento do seu povo. Quer saber quantas pessoas vivem no reino, quantos guerreiros estão prontos para a luta. Era comum naquele tempo os reis terem essa curiosidade para saberem se poderiam ou não vencer uma possível batalha. Os aliados de Davi acham estranho o desejo do rei uma vez que não era comum Davi se comportar como os outros. Contar os guerreiros significa saber se são fortes ou não para uma batalha. Mas, acabam cedendo e obedecem a ordem do rei. Terminado o recenseamento, tendo os números em suas mãos, o texto diz que o rei cai em arrependimento: “depois que o povo foi recenseado, Davi sentiu remorsos e disse ao Senhor: cometi um grande pecado, ao fazer o que fiz”. Qual pecado cometeu o rei em contar seus guerreiros? O que causou o remorso em Davi? Aos nossos olhos parece não ter nada demais a atitude do rei em contar seus guerreiros. Então, qual foi mesmo o mal da ação? Uma só: Davi esqueceu que o povo não lhe pertence, que a coroa que usa não foi uma conquista sua, mas uma escolha de Deus. Que todas as vitórias que até agora ele conquistou foram todas por permissão de Deus. Que quem governa o povo é Deus pelo rei e não apenas o rei por sua própria vontade. O pecado de Davi consistiu na falta de confiança em Deus. O rei, agora, com um reino mais forte começa a achar que tudo é obra dele e começa a fazer coisas deixando Deus de lado, querendo tirá-lo do meio das decisões. Pergunto-lhes, caríssimos, não é assim também nos dias de hoje no mundo em que vivemos? É comum vermos os grandes homens do mundo tentando afastar Deus de suas decisões, acreditando que o bom desenvolvimento de seus países é pura e simplesmente obra de suas próprias mãos? Não é comum o nossos lideres afirmarem que nossos países são laicos, ou seja, não professam nenhuma fé para não ferirem o direito dos cidadãos que afirmam serem ateus? Não estamos a mercê de uma onda de ateísmo, onde o estado agora que proibir o uso de símbolos religiosos até mesmo em nossas roupas, mandando que se tire todos os símbolos do olhar público? Agora, lhes convido a olhar para a segunda parte do texto. Fala-se que pelo pecado cometido, o reino todo sofrerá as consequências. Vejam caríssimos, pelo erro do rei, todo povo sofrerá. O pecado não trás consequências só para quem o comete, ele fere também aqueles que estão perto de quem o comete. Uma grande peste caiu sobre o reino e dizimou a vida de mais setenta mil pessoas. Vendo o flagelo, o rei implora a Deus o perdão que o concede. O rei toma consciência do seu erro e coloca-se diante de Deus como o único merecedor do castigo: “Fui eu que pequei, eu é que tenho a culpa. Peço-te, que a tua mão se volte contra mim”. Deus se compadece do seu povo e retira o mal.

Voltando para o nosso hoje atual, qual o resultado do mundo que quer tirar Deus do seu meio? Crises, muitas crises. Crises econômicas, por exemplo, onde os países que eram vistos como ricos agora amargam uma recessão violenta onde segundo pesquisas feitas recentemente na Europa, mostram que a taxa de desemprego entre os jovens é altíssima. Crise de violência, é só lembrarmos quantos ditadores caíram ano passado derrubados pela fúria de sua própria população. Crise de valores morais onde nossos homens públicos são desacreditados por suas ações de corrupção e desprezo pelo povo que lhe confiou um mandato. Crise familiar onde a família não consegue reconhecer o papel de cada um para que possa crescer como verdadeira obra de Deus. Sim, caríssimos, eis o mundo em que vivemos. Um mundo que se gloria em dizer que não precisa de Deus, mais que está caindo aos pedaços. Que Deus tenha piedade dele.
Qual a causa de tanta tribulação? O evangelho que ouvimos responde: “E ali não pode fazer milagre algum. Apenas curou alguns doentes, impondo-lhes as mãos. E admirou-se com a falta de fé deles”. Vejam caríssimos, até Jesus se admira com a falta de fé dos seus conterrâneos. O que lhes causavam essa falta de fé? A falta de abertura para a novidade de Jesus pelo simples fato de o conhecerem e a sua família. Como pode ele ter tanta sabedoria se ele sempre viveu aqui entre nós? De onde vem tanto poder se ele fazia o mesmo que nós fazíamos?
Aqui retorna mais uma vez a pergunta inicial: o que devemos fazer para que a santidade de Deus que tornou diferente dos outros a vida de São Sebastião, torne também a nossa?
Vamos ao nosso mártir.  São Sebastião nasceu em Narvonne, França, no final do século III, e desde muito cedo seus pais se mudaram para Milão, onde ele cresceu e foi educado. Seguindo o exemplo materno, desde criança São Sebastião sempre se mostrou forte e piedoso na fé. Atingindo a idade adulta, alistou-se como militar, nas legiões do Imperador Diocleciano, que até então ignorava o fato de Sebastião ser um cristão de coração. A figura imponente, a prudência e a bravura do jovem militar, tanto agradaram ao Imperador, que este o nomeou comandante de sua guarda pessoal. Nessa destacada posição, Sebastião se tornou o grande benfeitor dos cristãos encarcerados em Roma naquele tempo. Visitava com frequência as pobres vítimas do ódio pagão, e, com palavras de dádiva, consolava e animava os canditados ao martírio aqui na terra, que receberiam a coroa de glória no céu.

Enquanto o imperador empreendia a expulsão de todos os cristãos do seu exército, Sebastião foi denunciado por um soldado. Diocleciano sentiu-se traído, e ficou perplexo ao ouvir do próprio Sebastião que era cristão. Tentou, em vão, fazer com que ele renunciasse ao cristianismo, mas Sebastião com firmeza se defendeu, apresentando os motivos que o animava a seguir a fé cristã, e a socorrer os aflitos e perseguidos. O Imperador, enraivecido ante os sólidos argumentos daquele cristão autêntico e decidido, deu ordem aos seus soldados para que o matassem a flechadas. Tal ordem foi imediatamente cumprida: num descampado, os soldados despiram-no, o amarraram a um tronco de árvore e atiraram nele uma chuva de flechas. Depois o abandonaram para que sangrasse até a morte. À noite, Irene, mulher do mártir Castulo, foi com algumas amigas ao lugar da execução, para tirar o corpo de Sebastião e dar-lhe sepultura. Com assombro, comprovaram que o mesmo ainda estava vivo. Desamarraram-no, e Irene o escondeu em sua casa, cuidando de suas feridas. Passado um tempo, já restabelecido, São Sebastião quis continuar seu processo de evangelização e, em vez de se esconder, com valentia apresentou-se de novo ao imperador, censurando-o pelas injustiças cometidas contra os cristãos, acusados de inimigos do Estado. Diocleciano ignorou os pedidos de Sebastião para que deixasse de perseguir os cristãos, e ordenou que ele fosse espancado até a morte, com pauladas e golpes de bolas de chumbo. E, para impedir que o corpo fosse venerado pelos cristãos, jogaram-no no esgoto público de Roma. Uma piedosa mulher, Santa Luciana, sepultou-o nas catacumbas. Assim aconteceu no ano de 287. Mais tarde, no ano de 680, suas relíquias foram solenemente transportadas para uma basílica construída pelo Imperador Constantino, e onde se encontram até hoje. Naquela ocasião, Roma estava assolada por uma terrível peste, que vitimou muita gente. Entretanto, tal epidemia desapareceu a partir da hora da transladação dos restos mortais desse mártir, que é venerado como o padroeiro contra a peste, fome e guerra.
Queridos amigos, neste breve relato do nosso glorioso mártir temos a resposta para a nossa pergunta. São Sebastião deixou ser conduzido por Deus. É assim que respondemos a santidade, sermos conduzidos por Deus nos nossos afazeres cotidianos, na família, no trabalho, no lazer, na fé. Jesus vive conosco, ele tomou nossa carne e se fez um de nós para que tomássemos o seu espirito e nos tornássemos divinos.
Gostaria, para concluir, observar ainda uma característica da devoção ao glorioso mártir. Em um dos vários hinos que cantamos de São Sebastião, tem um que diz o seguinte: “Sois mártir de Cristo, famoso varão! Livrai-nos da peste, São Sebastião”. A devoção a São Sebastião dar-se por sua intercessão em tempos de epidemias. Em nossa região no inicio do século passado, era comum encontrarmos situações degradantes de higiene sanitária. Isto era um paraíso para a proliferação de doenças. Há relatos de curas e até mesmo de total desaparecimento da peste neste tempo passado em nossa região, como é o caso de Quipapá. Lá, um senhor fez uma promessa a São Sebastião para que livrasse a cidade da epidemia. Já se passaram 77 anos da promessa e todos os anos uma festa fora de época é realizada em honra de São Sebastião. Aqui também teve o mesmo motivo. Mais agora os tempos são outros. Nossas cidades parecem serem mais cuidadas, parecem serem mais dignas de morada. Nossos governos trabalham bastante para acabar com epidemias que antes tiravam a vida de muitos ou deixavam sequelas para a vida toda como a paralisia infantil. Mais nem tudo está perfeito ainda. A saúde pública no Brasil deixa muito a desejar. Em nosso Estado de Pernambuco, muitos hospitais e unidade de atendimento estão sendo construídos. Mais ainda é dolorosa a visão de pessoas sofrendo em filas de hospitais nas madrugadas para conseguirem uma ficha de atendimento. Ora faltam condições físicas, ora falta profissionais qualificados e bem pagos para realizem sua profissão. Disseram-me que vosso governo municipal mantém em Recife uma casa de apoio para aqueles que precisam de tratamento lá. Isto merece voto de aplauso e ser imitado por outros munícipios. Pensando nesta realidade da saúde, a Igreja no Brasil trará este tema tão importante para nossa reflexão na próxima Campanha da Fraternidade na Quaresma que se aproxima: Fraternidade e Saúde Pública. Peçamos a São Sebastião que sensibilize sempre mais aqueles que nos governam para essa dolorosa realidade dos enfermos e busquem soluções. Que a santidade de Deus, tão presente no nosso glorioso mártir seja também a meta nossa e daqueles que nos governam. Amém.

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