quarta-feira, maio 09, 2012

HOMILIA EM MEMÓRIA A DOM. TIAGO PÓSTMA


Homilia na Missa do Décimo Aniversário de Falecimento de Dom Tiago Póstma.
Catedral de Garanhuns, 08 de Maio de 2012


Venerável Pai
Caros Padres,
Queridos Amigos “Não se perturbe o vosso coração, nem se atemorize” Com esta palavra do evangelho de hoje, reunidos nesta Igreja Catedral, elevamos preces em sufrágio da alma do nosso oitavo bispo diocesano no décimo aniversário do seu transcurso para a casa do Pai. Hoje, esta celebração se reveste de três palavras: Lembrança, Saudades e Esperança.
Lembrança, porque perpassa pelos nossos pensamentos aquelas horas de dor e tristeza que invadiu nossos corações após a morte do nosso amado Pastor. Lembrança das inúmeras celebrações, festividades, encontros pastorais que vivenciamos durante os vinte anos de seu pastoreio em nossa Diocese.
Saudades, de sua pessoa, sua palavra, sua afabilidade, seu censo pastoral, sua amizade.
Esperança, na certeza de que agora no céu nossa Diocese conta com a oração de mais um intercessor. Tudo isto queremos colocar no altar do Senhor e oferecer tudo a Ele como mistério da nossa fé. Na páscoa de Cristo, colocamos a páscoa de Dom Tiago que agora com Cristo forma um, como pregava a partir de seu lema episcopal “que todos sejam um”.
Dez anos se passaram. Por coincidência foi uma terça-feira o dia 08 de maio de 2002. A esta hora, estávamos a espera do corpo do Dom que estava vindo do Recife. As 21:00, Dom Irineu e alguns padres presentes celebraram a primeira missa de corpo presente. A partir deste momento até as 18:00 da quarta-feira, essa Catedral recebeu milhares de pessoas que desejavam ver pela última vez aquele que mesmo sendo agora emérito, continuava querido no coração dos diocesanos. É impossível retirar da nossa memória a quantidade de pessoas simples de todos os recantos da nossa Diocese que aqui estiveram. Com jeito simples, aproximavam-se do caixão, beijavam seu rosto, tocavam suas mãos, rezavam, choravam. Aquela gente simples que por muitas vezes o receberam em suas paróquias, agora vinha até a Igreja Catedral para dar-lhe o último adeus. Eram os pobres, homens e mulheres aos quais Dom Tiago dedicou sua vida sacerdotal desde o primeiro momento que chegou a Terras Brasileiras no distante ano de 1964, junto com os padres Gerbrando e Nicolau, vindos da Diocese de Harlem, na Holanda, atendendo ao convite da missão adgentis, um dos muitos frutos do Concílio Vaticano II. Naquela época, a Igreja da Europa quis oferecer de sua riqueza para a Igreja Latino Americana. Muitos padres deixaram sua terra, sua casa, sua parentela e, a exemplo de Abraão partiram para a nova Terra Prometida, ou seja, a nova terra de missão da Igreja Católica, que para nós se chama Brasil.
Os padres holandeses ao chegarem aqui, já encontraram seus conterrâneos na paróquia do Perpétuo Socorro. A eles, foi dada a Paróquia de Santa Terezinha no magano, que na época abrangia ainda os municípios de Caetés e Paranatama. Dom Tiago não se limitou apenas ao serviço paroquial, mais a pedido do bispo diocesano, Dom Milton Correia de saudosa memória, assumiu também a coordenação da pastoral diocesana que naquela época tinha o trabalho de motivar a pastoral em toda a Diocese de uma forma comum e orgânica. Segundo relatos, era comum vê-lo nas comunidades com uma equipe em reunião de formação bíblica e pastoral. Impulsionado pelos ventos do Concilio Vaticano II e pela Conferência de Medellin, chegava até nós uma nova visão de Igreja, onde era dado o destaque do papel do leigo na evangelização e da necessidade de tornar missionária toda a Igreja. Para isto, tão logo tornou-se bispo de Garanhuns em 14 de dezembro de 1974, Dom Tiago transformou o prédio do Seminário São José em um centro de treinamentos para lideranças pastorais das paroquias. Motivou e acompanhou as Assembleias Diocesanas como lugar principal de debates e decisões para a pastoral em nossa Diocese. Nessas assembleias, os padres e os leigos aprenderam a conversar e discutir as melhores formas de tornar a evangelização mais eficaz na construção do Reino de Deus em nosso meio, tudo sob a coordenação e olhar ativo do seu pastor.
Como resultado da opção evangélica pelos pobres feita pela Igreja, Dom Tiago se viu diante de muitas lutas sociais, uma vez que se compreendia que era necessário sentir de forma concreta os sinais do Reino de Deus na vida do povo. Em diversos conflitos se viu a ação presente deste Bispo que teve por causa disso a sua vida muitas vezes ameaçada. Porém, nunca foram essas ameaças motivo de medo ou de desistência, mais pelo contrário, estimulo e confiança de que estava seguindo os passos do seu Mestre. “Não se perturbe o vosso coração, não se atemorize”, com certeza, esse versículo bíblico deve ter sido a força para o Dom nestes momentos de perseguição. A exemplo de Paulo na primeira leitura de hoje, o Dom sabia que “era preciso passar por muitas tribulações para se chegar ao Reino de Deus”.
Onde mais o Dom encontrava a força necessária para manter firme a sua missão de Pastor? Qualquer um que convivesse com ele saberia, na eucaristia que era a sua primeira atividade diária e cotidiana. Participei diversas vezes em que estive com ele no período das férias do Seminário destas celebrações em sua casa, quer aqui, quer no Recife. Sempre admirei a sua constante fidelidade a oração das horas, até mesmo quando estávamos viajando e, depois de uma conversa ele dizia: licença um instante, daqui a pouco eu volto. Então, pegava seu breviário e rezava a hora indicada. E por diversas vezes o vi deixar o que estava fazendo e ir fazer a leitura do breviário. Lembro-me que comentei certa vez que não imaginava que um bispo precisava rezar tanto, para ouvir dele que todos nós devemos rezar muito.
“Que todos sejam um!” eis, caríssimos, o lema que o Dom escolheu para a sua vida episcopal. Tirou-o da oração de despedida de Jesus do capitulo 17 do evangelho de João. Após um longo discurso que enriquece o gesto do lava pés e da instituição da eucaristia, Jesus conclui com uma grande prece pelos apóstolos e por aqueles que irão crer pelo testemunho dos apóstolos. Nesta oração, Jesus mostra sua intimidade com o Pai, sua filiação divina e torna-se o canal que une a terra ao céu: “Já não estou no mundo, enquanto eles estão no mundo; eu vou para ti, Pai Santo; guarda-os no teu nome, nome que me deste, para que sejam um como nós somos um.” (Jo 17,11) Eis, também, o desejo do Dom quando assumiu a nossa Diocese, que todos fossemos um em Cristo com ele. No seu jeito afável e carinhoso de pastor fazia com que todos se sentissem bem na sua presença. Sua forma de ser era tão natural que muitas vezes alguém acabava esquecendo de que ele era o bispo e o chamava pelo nome o que não diminuía em nada sua dignidade episcopal. Era assim, o Dom pelo qual rezamos hoje, um Bispo, um Servo, um Irmão. Muitas vezes incompreendido até mesmo por membros do clero, mas amado e acolhido pelas pessoas simples que viam nele a presença do Cristo Bom Pastor. Se já se passaram 10 anos de sua partida para a casa do Pai, com certeza não diminuiu em nada o reconhecimento e a gratidão de cada Diocesano, Padre ou leigo, pela figura humana e cristã de Dom Tiago. 
Vivemos agora tempos novos porque a Igreja é conduzida pelo Espirito e ele sempre renova todas as coisas. Alguns poderão até sentir saudades daquele tempo, outros até desejariam que ele voltasse. Mas, por fidelidade ao Espirito que renova todas as coisas temos que viver no tempo presente e descobrir o que agora o Espirito fala a Igreja. Com certeza, se estivesse vivo entre nós, Dom Tiago também seria homem deste tempo, descobriria como compreender a voz do Espirito e continuaria sua missão de pastor para o tempo presente. Digo isto, porque outra característica que o Dom possuía era ser uma pessoa dinâmica, que nunca ficava preso sempre às mesmas coisas e aos mesmos lugares. Basta lembramos em quantas casas o Dom morou nesta cidade. 
Sim, a Igreja vive da condução do Espirito que seu Mestre enviou. Quando ela esquece isto, termina traindo a sua missão e muitos acabam transformando-se em ídolos que caem no erro de criar sua próprias interpretações da doutrina católica, deixando de lado seu patrimônio doutrinal que a séculos confirma que estamos na verdadeira Igreja de Cristo. Aconteceu no passado, pode acontecer no presente. Como pastores e leigos do tempo que se chama hoje somos responsáveis por, com o Espirito, conduzir a Igreja em tempos tão tempestuosos para o porto seguro da casa do Pai.
Nada poderá nos assustar nem nos desviar do caminho porque na Igreja Cristo deu o Dom da Paz: “Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz. Não vo-la dou como o mundo a dá. Não se perturbe o vosso coração, nem se atemorize!”. Nestes dez anos que se passaram desde a morte do Dom, muitas coisas aconteceram em nossa Diocese, até mesmo já chegamos ao décimo pastor. O que não pode mudar?
A essência da nossa missão quer como sacerdotes, quer como leigos, quer como pessoas consagradas. Como estamos celebrando a eucaristia na memória de um dos nossos pastores, vale lembrar o que disse o Beato João Paulo II aos Bispos do Brasil na sua primeira visita em Fortaleza, visita essa que nosso Bispo atual ajudou a organizar e dela participou, em 1980:
“Sede pais e irmãos de vossos Presbíteros, colaboradores vossos na obra do Evangelho (cf. Fl 4,3). Estou certo de que vossa experiência de Bispos só pode confirmar a minha, de vinte anos Bispo da Cracóvia: se é estimulante e encorajador para um sacerdote contar com a acolhida e colaboração de seu povo, a amizade dos colegas, não o é menos – diria que é muito mais – contar com a compreensão, a proximidade, o amparo nas horas difíceis, por parte do Bispo. Os Presbíteros de uma Diocese compreendem, de modo geral, que faltem ao Bispo dotes de administrador, de organizador, de intelectual, mas sofrem se não encontram nele a confiança de um irmão e a segurança impregnada de afeto, de um pai. Dai o melhor de vós mesmos para estardes sempre próximos de vossos padres. Mas sobretudo recordai-vos que, para um Bispo nada pode ser mais urgente e precioso do que a santidade de seus sacerdotes. “Forma gregis”, modelo do rebanho, não é exagerado nem deve ser utópico pedir ao Bispo que ele seja também “forma pastorum”, modelo de seus sacerdotes em tudo aquilo que constitui a espiritualidade – santidade pessoal e zelo apostólico  do seu Presbitério. Usando essas palavras do Santo Padre de saudosa memória, rogo ao Senhor da Messe e Pastor do Rebanho que suscite sempre em nosso meio santas vocações para a sua grei.
Que Dom Tiago lá no céu, reze pela nossa Diocese para que continuemos o anseio de que todos sejam um, enquanto arde os nossos corações. Amém!

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